Autora: Nathane Jamile Ferreira Costa (estudante de 3º semestre do Curso de Direito da Unijorge)
Este trabalho é referente aos diários de campo realizados sobre Assédio Moral no ambiente de trabalho inicializada em 2009.2 pelos alunos do curso de Direito da Unijorge de acordo com as orientações da professora Petilda Vazquez . Onde os alunos puderam ter uma noção sobre as situações vivenciadas pelos comerciários de Salvador. Posteriormente, agora no terceiro semestre do curso, estamos finalizando o trabalho com mais discussões e aprofundamento do tema que está sendo proporcionado pela professora de Sociologia do Direito, Maria Eunice Borja.
Através dos diários de campo analisados, pude ter uma percepção mais profunda sobre a questão do “Assédio Moral no ambiente de trabalho”. O Assédio Moral é a exposição dos trabalhadores a situações constrangedoras, humilhantes continuamente no ambiente de trabalho, no exercício das suas funções caracterizando pela degradação sem razão das condições de trabalho e isso fica mais evidente na relação empregador-empregado. Através dos questionários pude perceber a vida que aqueles trabalhadores levavam seus problemas, queixas e medos que os impedem de reivindicarem seus direitos. Isso mostra que o ambiente de trabalho está se transformando em um campo de guerra do medo, disputas, abuso de poder dos chefes em relação aos seus subordinados.
É necessário que seja analisado o comportamento dos trabalhadores durante a entrevista, e a descrição do trabalho dos mesmos para o desenvolvimento de uma análise crítica sobre o comportamento dos vitimados pelo nefasto fenômeno do assédio moral no trabalho.
Durante a execução da entrevista percebemos o comportamento daqueles entrevistados. Na maioria das vezes eles mostravam-se nervosos e apreensivos em relação à entrevista. Isso fica bem visível nesse trecho: “O entrevistado concordou de imediato com a entrevista, mas demonstrou-se apreensivo e nervoso.” (Diário de campo da pesquisadora C. C.). Além do nervosismo podemos perceber que eles também sentiam medo e desconfiança em relação a finalidade da entrevista. Medo é um sentimento que levam as pessoas em ficarem em estado de alerta por se sentirem ameaçados. Podemos ver isso no seguinte trecho: “Percebi que os entrevistados estavam meios intimidados pelo fato da singularidade das respostas, mesmo a gente sempre lembrando aos mesmos, que as informações eram seguras e que a nossa instituição era uma instituição seria e que se responsabilizava por tudo.” (Diário de campo da pesquisadora A. P. de C. C.)
Em relação ao meio ambiente de trabalho dos comerciários podemos discorrer sobre várias relações entre os mesmos e a empresa, aos próprios colegas, a chefia e até mesmo relacionado com a estrutura da empresa para a qual prestam serviços. Em relação a empresa pude compreender que muitos trabalhadores quando entravam em determinada empresa criavam expectativas de uma nova vida, de ter seus direitos assegurados, e acabavam estressados e vendo que a realidade daquela vida na empresa era muito diferente da qual se imaginava. Isso é retratado nesse trecho:
“Ressaltou várias vezes que “todo mundo” estava estressado em trabalhar na empresa X. O trabalho não dava mais prazer como no início. “Você pensa que é uma coisa e acaba sendo outra” (palavras de S.).’’ (Diário de campo de D. dos S.).
Através desse trecho podemos ver que muitos comerciários entram em uma empresa com uma ilusão e vivem nela a desilusão, e acabam adquirindo muitas conseqüências, dentre elas, o estresse. O estresse seria uma reação do organismo a um esforço estremo ou importante, uma tensão..
Em relação aos próprios colegas de empresa muitas vezes é marcada pela falta de solidariedade entre eles, e muitas vezes também são relações competitivas e geradoras de assédio moral. Vejamos abaixo em que isso fica bem claro:
“Existe um assédio moral no trabalho e pior,por parte até de colegas de serviço, que poderiam facilitar a vida um dos outros, se unindo para se fortalecerem e fazer valer todos os seus direitos trabalhistas, mas o individualismo fala mais alto e o assédio moral continuará a ser prática freqüente nesses ambientes.” (Diário de campo de S. M.)
Assim podemos ver que o assédio não é restrito apenas entre empregador-empregado, entre consumidor-empregado, mas também na relação empregado-empregado. E isso se deve e a competitividade como já havia dito anteriormente como também, principalmente devido a outros fatores como o próprio estresse e nervosismo causados pelas humilhações pelos quais esses trabalhadores são submetidos no ambiente de trabalho, assim como devido a falta de companheirismo, tolerância e compreensão com o erros humanos, criando assim um meio propício para a criação do assédio moral.
Em relação a chefia há muitas críticas a expor. Os maiores assediadores contra os empregados são os próprios chefes. Aqueles que detêm o poder e o utilizam como forma de mostrar superioridade. E assim é o assediador, um ser que vive nos extremos que utiliza apenas o assédio moral como válvula de escape, que muitas vezes mostram descaso com os problemas dos seus funcionários, provocando neles intimidações pressões físicas e psicológicas, trazendo muitas consequências na vida desses trabalhadores.
Uma das consequências mais graves em relação ao trabalho desses comerciários é em relação a saúde. A OMS (Organização Mundial de Saúde) prevê o aumento galopante das doenças ligadas às formas de gestão e organização do trabalho geradas pelas políticas neoliberais, afirmando que as próximas décadas irão dar corpo a uma era de novas doenças profissionais, todas resultantes do processo neoliberal. Através dos diários de campo percebemos muitas doenças decorrentes do trabalho, como a LER (Lesão por Esforço Repetitivo), como está exposto no seguinte trecho:
“O mesmo reclamava de dor nas costas, nos ombros, LER (lesão por esforço repetitivo) e da falta de alimentação saudável, já que segundo ele, a comida do jantar era a mesma comida do almoço, reclamava também a falta de higiene no sanitário.” (Diário de campo de P. R. C.)
Outra consequência grave decorrida das formas de gestão e organização do trabalho nesse sistema neoliberal é em relação às pressões psicológicas. Pressão seria a exigência de se fazer um trabalho em excesso, com exigência pela constante superação de metas e objetivos. Vejamos melhor compreender isso através da citação abaixo:
“Existe uma espécie de controle rígido e muito aparente nas relações de trabalho, que funciona como pressão pela efetividade e pela eficiência do funcionário à sua função. Se diz como uma organização flexível e de alta produtividade, mas que na verdade não passa de uma diversidade da tipificação da violência moral que os supervisores, gerentes, donos exercem sob seus empregados.” (Diário de campo de C. V. de S. S. C.)
Em relação à estrutura física da empresa também há muitas críticas a se fazer. Os empregados além de trabalhar mediante pressões físicas e psicológicas, ainda são submetidos a uma estrutura física precária que os proporcionam ainda menos estímulo para trabalhar. Eles se deparam com situações em que tem que trabalhar com máquinas quebradas, sem segurança, e o local para o descanso geralmente é insalubre, sujo como foi dito por muitos dos trabalhadores entrevistados. Com relação a isso podemos fazer um paralelo em relação a outra questão importante que se deve analisar que é muito afrontada em relação aos trabalhadores que é a dignidade da pessoa humana. Vejamos abaixo a situação dos comerciários:
“O local onde eles descansam é na rampa que dá acesso ao estacionamento, ou no próprio estacionamento, um local insalubre, completamente sujo, abafado e escuro. Tudo recoberto por uma fuligem e teias de aranha, cabendo ressaltar que somente por este curto espaço de tempo que lá passei, consegui uma crise de rinite e faringite que me deixou afônica por seis dias. O que me leva a pensar a situação que se encontra a saúde daqueles trabalhadores.” (Diário de campo de C. S. M.).
Fica claro que o princípio da dignidade da pessoa humana está sendo afrontado. Sabe-se que a dignidade da pessoa humana é o princípio mais importante da nossa constituição. Como podemos ver no inciso III, art. 1º, da Constituição Federal: Art 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: III- a dignidade da pessoa humana
Como já foi dito anteriormente, o que está no nosso ordenamento não é o que ocorre na realidade, pois vimos que a todo o momento o empregador está afrontando a dignidade dos trabalhadores em prol do “bom” funcionamento da empresa. A exigência em colocar em prática esse princípio no Direito do Trabalho seria uma forma de combater o assédio moral no ambiente de trabalho. Como foi dito por Genesio Solano Sobrinho¹:
“ A atual Constituição Federal, de 05 de outubro de 1988, inovou a respeito, marcando um avanço significativo em termos de Carta Política moderna, dando destaque aos direitos trabalhistas e elevando-os à condição de direitos inalienáveis do trabalhador, eis que independentes da vontade do estado, ou do legislador ordinário, sob o título ‘ Dos direitos sociais’, e, em apartado, pela disciplina da ordem econômica e social.”
Assim podemos compreender que o Direito refletindo sobre as relações trabalhistas tem o objetivo de proteger o trabalhador dando melhorias na sua condição social. É necessário que haja um aumento da eficácia judicial para a proteção desses direitos sociais, eliminando a corrupção e a violência desses direitos fundamentais pelos capitalistas globalizados.
Devido a esse fato surgem indagações. De que forma as decisões judiciais podem gerar mudanças sociais significativas? E quanto ao direito, seria uma ferramenta eficaz para a emancipação social? Diversos autores da sociologia do direito defendiam a ideia de que através das decisões judiciais podiam ser atingidas mudanças sociais significativas (Rosenberg, 1991, p. 21-30). Porém, na realidade, vemos que isso não acontece devido à diferença entre o direito escrito e o aplicado. Há dois fatos que justificam isso: primeiro que uma boa parte do direito escrito ou fracassa em termos instrumentais ou é criado com o objetivo de cumprir propósitos diferentes daqueles para os quais foi concebido. Podemos fazer uma análise do texto “Poderá o Direito ser emancipatório” de Boaventura dos Santos com o que já foi retratado acima; em que podemos dizer que o direito escrito não é o mesmo do direito aplicado, desejamos uma sociedade com uma boa ordem e não é isso que acontece na prática. Devido principalmente a esse mundo globalizado em que o interesse individual, de grandes empresas está acima do interesse coletivo gerando cada vez mais desigualdade e exclusão, como é mostrado no seguinte trecho:
“Continuamos obcecados pelas ideias de uma ordem e de uma sociedade boa, quanto mais não seja devido à natureza da (dês)ordem que reina nestas sociedades em que são cada vez maiores a desigualdade e a exclusão- exactamente num momento da história em que pareceria que os avanços tecnológicos existem para que as sociedades sejam de outro modo.” (SANTOS, 2003, p.7)
Estamos em um mundo em que o interesse individual está acima do coletivo, como foi exposto acima. O mesmo mundo em que a globalização advinda com o sistema neoliberal que para muitos seria a mudança, um ideal de igualdade nas relações de trabalho, da defesa dos direitos de cidadania, e também da criação do cosmopolitismo em que todas as nações se tratavam igualitariamente, ficou apenas no idealismo, pois a realidade vivenciada é outra.
O grande problema, como foi exposto no texto “Poderá ser o Direito emancipatório” de Boaventura dos Santos, é que a medida que a globalização do capital ocorria, que os capitalistas se uniam para utilizar o trabalho e reduzi-lo como mero fator de produção e assim o interesse econômico acima do social, os sindicatos apenas se uniam em nível nacional. E para fazer frente mediante o capital global o movimento operário precisa se reestruturar profundamente de forma global não somente local. (SANTOS, 2003, p.51).
É ai que surge a importância das ONGs, sindicatos, da OIT e as participações populares, pois só elas são capazes de provocar a mudança nesse mundo dominado pelo individualismo neoliberal. Acabando com essa “invisibilidade social” das classes desfavorecidas, ajudando os trabalhadores a obter um maior resultado dos seus esforços e exigir o compromisso com os direito humanos como está exposto nos “Princípios Fundamentais do Trabalho” da OIT ( Organização Mundial do Trabalho), que passa a mensagem que o trabalhador deve ter sua cidadania respeitada.
Nota de Rodapé:
¹Juiz do Trabalho (aposentado) da 15ª Região, Professor Universitário e Advogado
Referências:
Através dos diários de campo analisados, pude ter uma percepção mais profunda sobre a questão do “Assédio Moral no ambiente de trabalho”. O Assédio Moral é a exposição dos trabalhadores a situações constrangedoras, humilhantes continuamente no ambiente de trabalho, no exercício das suas funções caracterizando pela degradação sem razão das condições de trabalho e isso fica mais evidente na relação empregador-empregado. Através dos questionários pude perceber a vida que aqueles trabalhadores levavam seus problemas, queixas e medos que os impedem de reivindicarem seus direitos. Isso mostra que o ambiente de trabalho está se transformando em um campo de guerra do medo, disputas, abuso de poder dos chefes em relação aos seus subordinados.
É necessário que seja analisado o comportamento dos trabalhadores durante a entrevista, e a descrição do trabalho dos mesmos para o desenvolvimento de uma análise crítica sobre o comportamento dos vitimados pelo nefasto fenômeno do assédio moral no trabalho.
Durante a execução da entrevista percebemos o comportamento daqueles entrevistados. Na maioria das vezes eles mostravam-se nervosos e apreensivos em relação à entrevista. Isso fica bem visível nesse trecho: “O entrevistado concordou de imediato com a entrevista, mas demonstrou-se apreensivo e nervoso.” (Diário de campo da pesquisadora C. C.). Além do nervosismo podemos perceber que eles também sentiam medo e desconfiança em relação a finalidade da entrevista. Medo é um sentimento que levam as pessoas em ficarem em estado de alerta por se sentirem ameaçados. Podemos ver isso no seguinte trecho: “Percebi que os entrevistados estavam meios intimidados pelo fato da singularidade das respostas, mesmo a gente sempre lembrando aos mesmos, que as informações eram seguras e que a nossa instituição era uma instituição seria e que se responsabilizava por tudo.” (Diário de campo da pesquisadora A. P. de C. C.)
Em relação ao meio ambiente de trabalho dos comerciários podemos discorrer sobre várias relações entre os mesmos e a empresa, aos próprios colegas, a chefia e até mesmo relacionado com a estrutura da empresa para a qual prestam serviços. Em relação a empresa pude compreender que muitos trabalhadores quando entravam em determinada empresa criavam expectativas de uma nova vida, de ter seus direitos assegurados, e acabavam estressados e vendo que a realidade daquela vida na empresa era muito diferente da qual se imaginava. Isso é retratado nesse trecho:
“Ressaltou várias vezes que “todo mundo” estava estressado em trabalhar na empresa X. O trabalho não dava mais prazer como no início. “Você pensa que é uma coisa e acaba sendo outra” (palavras de S.).’’ (Diário de campo de D. dos S.).
Através desse trecho podemos ver que muitos comerciários entram em uma empresa com uma ilusão e vivem nela a desilusão, e acabam adquirindo muitas conseqüências, dentre elas, o estresse. O estresse seria uma reação do organismo a um esforço estremo ou importante, uma tensão..
Em relação aos próprios colegas de empresa muitas vezes é marcada pela falta de solidariedade entre eles, e muitas vezes também são relações competitivas e geradoras de assédio moral. Vejamos abaixo em que isso fica bem claro:
“Existe um assédio moral no trabalho e pior,por parte até de colegas de serviço, que poderiam facilitar a vida um dos outros, se unindo para se fortalecerem e fazer valer todos os seus direitos trabalhistas, mas o individualismo fala mais alto e o assédio moral continuará a ser prática freqüente nesses ambientes.” (Diário de campo de S. M.)
Assim podemos ver que o assédio não é restrito apenas entre empregador-empregado, entre consumidor-empregado, mas também na relação empregado-empregado. E isso se deve e a competitividade como já havia dito anteriormente como também, principalmente devido a outros fatores como o próprio estresse e nervosismo causados pelas humilhações pelos quais esses trabalhadores são submetidos no ambiente de trabalho, assim como devido a falta de companheirismo, tolerância e compreensão com o erros humanos, criando assim um meio propício para a criação do assédio moral.
Em relação a chefia há muitas críticas a expor. Os maiores assediadores contra os empregados são os próprios chefes. Aqueles que detêm o poder e o utilizam como forma de mostrar superioridade. E assim é o assediador, um ser que vive nos extremos que utiliza apenas o assédio moral como válvula de escape, que muitas vezes mostram descaso com os problemas dos seus funcionários, provocando neles intimidações pressões físicas e psicológicas, trazendo muitas consequências na vida desses trabalhadores.
Uma das consequências mais graves em relação ao trabalho desses comerciários é em relação a saúde. A OMS (Organização Mundial de Saúde) prevê o aumento galopante das doenças ligadas às formas de gestão e organização do trabalho geradas pelas políticas neoliberais, afirmando que as próximas décadas irão dar corpo a uma era de novas doenças profissionais, todas resultantes do processo neoliberal. Através dos diários de campo percebemos muitas doenças decorrentes do trabalho, como a LER (Lesão por Esforço Repetitivo), como está exposto no seguinte trecho:
“O mesmo reclamava de dor nas costas, nos ombros, LER (lesão por esforço repetitivo) e da falta de alimentação saudável, já que segundo ele, a comida do jantar era a mesma comida do almoço, reclamava também a falta de higiene no sanitário.” (Diário de campo de P. R. C.)
Outra consequência grave decorrida das formas de gestão e organização do trabalho nesse sistema neoliberal é em relação às pressões psicológicas. Pressão seria a exigência de se fazer um trabalho em excesso, com exigência pela constante superação de metas e objetivos. Vejamos melhor compreender isso através da citação abaixo:
“Existe uma espécie de controle rígido e muito aparente nas relações de trabalho, que funciona como pressão pela efetividade e pela eficiência do funcionário à sua função. Se diz como uma organização flexível e de alta produtividade, mas que na verdade não passa de uma diversidade da tipificação da violência moral que os supervisores, gerentes, donos exercem sob seus empregados.” (Diário de campo de C. V. de S. S. C.)
Em relação à estrutura física da empresa também há muitas críticas a se fazer. Os empregados além de trabalhar mediante pressões físicas e psicológicas, ainda são submetidos a uma estrutura física precária que os proporcionam ainda menos estímulo para trabalhar. Eles se deparam com situações em que tem que trabalhar com máquinas quebradas, sem segurança, e o local para o descanso geralmente é insalubre, sujo como foi dito por muitos dos trabalhadores entrevistados. Com relação a isso podemos fazer um paralelo em relação a outra questão importante que se deve analisar que é muito afrontada em relação aos trabalhadores que é a dignidade da pessoa humana. Vejamos abaixo a situação dos comerciários:
“O local onde eles descansam é na rampa que dá acesso ao estacionamento, ou no próprio estacionamento, um local insalubre, completamente sujo, abafado e escuro. Tudo recoberto por uma fuligem e teias de aranha, cabendo ressaltar que somente por este curto espaço de tempo que lá passei, consegui uma crise de rinite e faringite que me deixou afônica por seis dias. O que me leva a pensar a situação que se encontra a saúde daqueles trabalhadores.” (Diário de campo de C. S. M.).
Fica claro que o princípio da dignidade da pessoa humana está sendo afrontado. Sabe-se que a dignidade da pessoa humana é o princípio mais importante da nossa constituição. Como podemos ver no inciso III, art. 1º, da Constituição Federal: Art 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: III- a dignidade da pessoa humana
Como já foi dito anteriormente, o que está no nosso ordenamento não é o que ocorre na realidade, pois vimos que a todo o momento o empregador está afrontando a dignidade dos trabalhadores em prol do “bom” funcionamento da empresa. A exigência em colocar em prática esse princípio no Direito do Trabalho seria uma forma de combater o assédio moral no ambiente de trabalho. Como foi dito por Genesio Solano Sobrinho¹:
“ A atual Constituição Federal, de 05 de outubro de 1988, inovou a respeito, marcando um avanço significativo em termos de Carta Política moderna, dando destaque aos direitos trabalhistas e elevando-os à condição de direitos inalienáveis do trabalhador, eis que independentes da vontade do estado, ou do legislador ordinário, sob o título ‘ Dos direitos sociais’, e, em apartado, pela disciplina da ordem econômica e social.”
Assim podemos compreender que o Direito refletindo sobre as relações trabalhistas tem o objetivo de proteger o trabalhador dando melhorias na sua condição social. É necessário que haja um aumento da eficácia judicial para a proteção desses direitos sociais, eliminando a corrupção e a violência desses direitos fundamentais pelos capitalistas globalizados.
Devido a esse fato surgem indagações. De que forma as decisões judiciais podem gerar mudanças sociais significativas? E quanto ao direito, seria uma ferramenta eficaz para a emancipação social? Diversos autores da sociologia do direito defendiam a ideia de que através das decisões judiciais podiam ser atingidas mudanças sociais significativas (Rosenberg, 1991, p. 21-30). Porém, na realidade, vemos que isso não acontece devido à diferença entre o direito escrito e o aplicado. Há dois fatos que justificam isso: primeiro que uma boa parte do direito escrito ou fracassa em termos instrumentais ou é criado com o objetivo de cumprir propósitos diferentes daqueles para os quais foi concebido. Podemos fazer uma análise do texto “Poderá o Direito ser emancipatório” de Boaventura dos Santos com o que já foi retratado acima; em que podemos dizer que o direito escrito não é o mesmo do direito aplicado, desejamos uma sociedade com uma boa ordem e não é isso que acontece na prática. Devido principalmente a esse mundo globalizado em que o interesse individual, de grandes empresas está acima do interesse coletivo gerando cada vez mais desigualdade e exclusão, como é mostrado no seguinte trecho:
“Continuamos obcecados pelas ideias de uma ordem e de uma sociedade boa, quanto mais não seja devido à natureza da (dês)ordem que reina nestas sociedades em que são cada vez maiores a desigualdade e a exclusão- exactamente num momento da história em que pareceria que os avanços tecnológicos existem para que as sociedades sejam de outro modo.” (SANTOS, 2003, p.7)
Estamos em um mundo em que o interesse individual está acima do coletivo, como foi exposto acima. O mesmo mundo em que a globalização advinda com o sistema neoliberal que para muitos seria a mudança, um ideal de igualdade nas relações de trabalho, da defesa dos direitos de cidadania, e também da criação do cosmopolitismo em que todas as nações se tratavam igualitariamente, ficou apenas no idealismo, pois a realidade vivenciada é outra.
O grande problema, como foi exposto no texto “Poderá ser o Direito emancipatório” de Boaventura dos Santos, é que a medida que a globalização do capital ocorria, que os capitalistas se uniam para utilizar o trabalho e reduzi-lo como mero fator de produção e assim o interesse econômico acima do social, os sindicatos apenas se uniam em nível nacional. E para fazer frente mediante o capital global o movimento operário precisa se reestruturar profundamente de forma global não somente local. (SANTOS, 2003, p.51).
É ai que surge a importância das ONGs, sindicatos, da OIT e as participações populares, pois só elas são capazes de provocar a mudança nesse mundo dominado pelo individualismo neoliberal. Acabando com essa “invisibilidade social” das classes desfavorecidas, ajudando os trabalhadores a obter um maior resultado dos seus esforços e exigir o compromisso com os direito humanos como está exposto nos “Princípios Fundamentais do Trabalho” da OIT ( Organização Mundial do Trabalho), que passa a mensagem que o trabalhador deve ter sua cidadania respeitada.
Nota de Rodapé:
¹Juiz do Trabalho (aposentado) da 15ª Região, Professor Universitário e Advogado
Referências:
· SOLANO SOBRINHO, Genesio Vivanco. Direito Constitucional e a flexibilização do Direito do Trabalho . Jus Navigandi, Teresina, ano 8, n. 365, 7 jul. 2004. Disponível em:
· FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Comentários à Constituição brasileira de 1988. Vol. I. São Paulo: Saraiva, 1990.
· ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Paho. Aumento das doenças geradas pelas políticas neoliberais. Disponível em: <> Acesso em 24 maio 2010.
· WIKIPEDIA. Medo. Disponível em:
· UPRIMNY, Rodrigo; GARCÍA, Maurício. Tribunal Constitucional e emancipação social na Colômbia. Disponível em: <> Acesso em 29 maio 2010.
· SANTOS, Boaventura de Sousa (2003), "Poderá ser o Direito emancipatório?", Revista Crítica de Ciências Sociais, 2003. págs. 7-51.
